Queimaduras em época de COVID-19
- Thiago Ayres Holanda
- 3 de jul. de 2020
- 2 min de leitura
Atualizado: 10 de out. de 2020

Perigo dentro de casa
Vivemos um período atípico. Fomos conscientizados sobre a importância do isolamento social para enfrentar a maior crise sanitária e econômica mundial. Deste modo, pais e filhos foram forçados a um confinamento, e junto com ele uma série de problemas, incluindo os de saúde: transtornos psicológicos, falta de acompanhamento adequado das doenças crônicas, acidentes domésticos.
Como cirurgião plástico, sinto o aumento de dois acidentes dentro de casa que merecem nossa atenção, por acometer principalmente crianças: os cortes e as queimaduras. Os primeiros decorrem das brincadeiras, que a garotada a todo momento reinventa, e que vez por outra necessitam suturas. Por várias vezes nessa pandemia tive que abrir nossa clínica, que estava fechada para cirurgias eletivas, para atender pais angustiados que queriam evitar levar seu filho ao pronto-socorro.
Mas as queimaduras também dispararam em incidência. Chamo atenção para um fator importante. Há alguns anos, o Ministério da Saúde havia proibido a comercialização do álcool na forma líquida, a fim de evitar queimaduras domiciliares, por conta da cultura que nós brasileiros temos de usar o álcool na limpeza geral da casa. Deste modo, apenas álcool na forma de gel era comercializado. Mas, devido ao súbito aumento nas compras de álcool-gel, chegando a zerar estoques, a venda de álcool em forma líquida também passou a ser liberado em caráter de emergência.
O álcool-gel que passamos a ter em casa hoje em dia por conta da COVID-19 tem a finalidade de desinfecção, possuindo concentração ainda maior (70%), tornando o produto mais inflamável e com chamas mais duradouras. Pode gerar, assim, queimaduras graves. Como alerta, lembro que muitas crianças já se familiarizaram com o produto, levando-o para os mais diversos cômodos, inclusive a cozinha.

Na cozinha, devemos redobrar nossa atenção. Existe risco iminente de queimaduras: pelos fornos aquecidos, pelas panelas com líquidos escaldantes e cabos expostos, pelos cafés e outros produtos sobre a mesa, e agora também pelo álcool-gel. Já temos um dos maiores índices mundiais de queimaduras domésticas envolvendo crianças, por conta destas primeiras causas. Precisamos evitar que o álcool-gel piore ainda mais esses dados.

Prof. Thiago Ayres Holanda
Cirurgião Plástico pelo Instituto Ivo Pitanguy
Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
Membro da International Society for Aesthetic Plastic Surgery
Membro Adjunto do Colégio Brasileiro de Cirurgiões
Boy and the Candle
Gerard Sekoto (1913-1993, born South Africa)
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